O AVESSO DO AVESSO: André Passari
A simbologia no nosso dia a dia
O ser humano está imerso em símbolos, tudo é símbo-
lo, o homem é um animal simbólico, já disse um filósofo. Mal suspeitamos de como o nosso inconsciente tece associações a torto e a direito e vai nos lançando em pensamentos e escolhas de múltiplos sentidos.
A começar, a linguagem é um apanhado de códigos, símbolos, e portanto tudo o que pensamos e dizemos, e tudo que é nomeado - quer dizer, o universo que concebemos - tem caráter simbólico.
Quando esquecemos uma palavra habitual, ou erramos a sua pronúncia, ou a trocamos desastrados por outra, é porque a associamos inconscientemente a um outro significado não expresso conscientemente. E não só as palavras, mas também os nossos gestos, multiplicados ao infinito, estão carregados de simbologia.
Alguém que perde as chaves de casa na rua, talvez não quisesse voltar para casa. O marido infiel deixa inadvertidamente uma carta da amante sobre a escrivaninha, só para que a esposa a encontre quando for limpá-la. Inconscientemente ele queria ser descoberto por sentir-se culpado.
Um rapaz cheio de inibições quanto à sexualidade resolve aprender a tocar violão, e sem perceber compra um cujas cordas lhe machucam os dedos. Tocar o violão é sofrível, forma calos, causa dor. Esse rapaz, que poderia ter comprado um violão mais macio, nem suspeita que escolheu aquele justamente para se punir ao abraçar aquele corpo sinuoso que lhe lembra uma mulher.
A aliança de casamento, por exemplo, simboliza o elo entre marido e mulher, o amor eterno, sem começo nem fim. Mas podemos também associar o anel ao hímen, a garantia da virgindade feminina, e quando os noivos introduzem a aliança no dedo do seu par, querem dizer que será ele a romper a virgindade dela, ou pelo menos a partir de agora só o marido introduzirá seu membro no órgão sexual da esposa.
Assim também acontece com todos os rituais e tradições que nos cercam, tudo está imerso na simbologia, e qualquer coisa, qualquer objeto, em circunstâncias peculiares a um indivíduo, pode ganhar conotações simbólicas.
Quem tiver um pouco de perspicácia e imaginação pode fazer uma reavaliação da sua vida e perceber quantas decisões foram tomadas porque se queria punir por algo ou provar alguma coisa a si ou a alguém. Quase sempre de forma inconsciente. A profissão escolhida, as pessoas de quem nos aproximamos, as preferências, algumas manias, alguns hábitos escondidos, tudo tem mais motivações do que a mera superfície.
Ao que nos diria o poeta: "há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode supor a nossa vã filosofia".
* André Augusto Passari - Médico Psiquiatra
Autor de "Fragmentos do Tempo" (Arte Paubrasil)
(www.artepaubrasil.com.br) / Saraiva / Cultura
Créditos: Tribuna
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