O AVESSO DO AVESSO: André Passari
Frankenstein e Quasímodo
Imagine, leitor, que dois monstros um dia se encontrassem, e, ao invés de falarem sobre terror, resolvessem discutir o amor. Pois esse encontro aconteceu, e foi assim:
Frankenstein:
- Qual o teu nome, figura medonha?
Quasímodo:
- Ora, por acaso não o sabes? Sou aquele do rosto desfigurado e que traz uma corcova sobre as costas. Nunca me trataram como gente. Sou quase humano, sou quase um monstro, sou Quasímodo! Mas me chamam, simplesmente, de Corcunda de Notre Dame.
Frankenstein:
- Oh, então és tu o tal Corcunda? Pois já conheço a tua história e o teu amor por Esmeralda. Sei também da tragédia que arruinou a tua vida e das maldades daquele insano: o patife Cláudio Frollo.
Quasímodo:
- Oh, nem me lembre, nem me lembre, são mágoas do passado. Mas, e quanto a ti, qual o teu nome?
Frankenstein:
- Na verdade, meu amigo, eu nem tenho um nome, mas todos, infelizmente, me chamam pelo sobrenome daquele desgraçado que me criou: Doutor Victor Frankenstein. Como bem podes ver, sou também um monstro desfigurado, feito de restos de cadáveres e com o corpo todo deformado. Porém, não falemos disso, pois tenho outro assunto em mente, que, pelo seu valor filosófico, se faz premente. Tu, criatura, que já sofreste tanto, diga-me, com clareza, o que pensas do amor?
Quasímodo:
- Ah, o amor! Eu que sempre fui um rejeitado, odiado por todos, sem nunca ser amado, sei muito bem o que é amar. Pois amo a bela e doce Esmeralda, mesmo não sendo amado por ela. E digo mais, caro Frankenstein, o meu amor será eterno, e sempre inteiro, pois ele é puro, nobre e verdadeiro. E se o meu corpo, tão medonho, não me permite ser amado, mesmo assim vou continuar amando, pois é só o amor, e nada mais, que transforma o monstro em ser humano.
Frankenstein:
- Ó céus, que ladainha enfadonha! Tu és um tolo, Quasímodo, um tolo com a alma romântica. Acreditas mesmo, idiota, que o monstro se transforma em humano?! Tu sempre serás feio, serás sempre essa figura horripilante, sempre um monstro, apavorante! Acostuma-te, meu caro, nunca serás amado, pois não há amor nenhum neste mundo que faça o ser humano amar o monstro, muito menos um monstro amar outro monstro. O belo atrai o feio, enquanto o feio enoja o belo. E nós, seres grotescos, já estamos de antemão condenados ao inferno.
* André Augusto Passari - Médico Psiquiatra
Autor de "Fragmentos do Tempo" (Arte Paubrasil)
(www.artepaubrasil.com.br) / Saraiva / Cultura
Créditos: Tribuna
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